À beira das ondas, de calças arregaçadas e sapatos na mão, procuras o fresco do mar, deixando a franja das ondas beijar-te os pés. Mas, cuidadoso, procuras não molhar as calças. Não vieste todo para isto. Vieste à costa fazer outras coisas e estás só a aproveitar o intervalo. Queres a praia e o mar, mas não vens livre, não te queres comprometer. Não vens vestido para isto, porque não vens a tempo inteiro. Não vens todo.
Olha para mim! De calções, pés descalços… Eu despojei-me, porque estou para isto. Livrei-me de roupa como aquela que tu não queres molhar. E agora estou livre. Todo inteiro. Como é bom confiar nesse oceano imenso que é Deus!
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terça-feira, 12 de agosto de 2014
terça-feira, 6 de maio de 2014
Celibato, uma riqueza na Igreja
Texto que fiz para publicar, aos poucos n'O Astrolábio.
Ser padre não é uma profissão
Ser padre não é “uma profissão como as outras”! E o celibato devia ajudar-nos a perceber isso. De facto, não falta quem diga: “por que é que os padres não se hão-de casar? Afinal, é uma profissão como as outras…”. Mas, se os sacerdotes não se casam, então é porque ser padre não é uma profissão (e muito menos uma profissão “como as outras”). Trata-se de uma vocação, e não de uma profissão. Na verdade, quando se pergunta a profissão a um homem casado, ninguém responde “sou casado”… A profissão representa, apenas, uma parte da nossa vida: o trabalho. Mas ser padre envolve toda a vida de quem o é, e não apenas os trabalhos próprios do padre. Quem diz que o padre se devia casar porque tem “uma profissão como as outras” está a colocar a questão ao contrário: se o padre é celibatário, então esse é, precisamente, o primeiro sinal de que ser padre não é uma profissão (nem “como as outras” nem como nenhuma).
O celibato é uma consagração
É uma questão de ser todo e só de Cristo, de uma forma muito especial. Não tem nada a ver com “ter mais tempo para as paróquias” ou “não ter tempo para a família”. Trata-se de ser todo só de Cristo, de se consagrar totalmente a Ele. E (embora pudesse ser de outra maneira) faz todo o sentido que o padre seja assim.
Então e as freiras?
Mas há outros celibatários para além dos sacerdotes. Ao contrário do que muitos pensarão, nem todos os frades e monges são padres. Muitos são, simplesmente, frades, ou então monges, da mesma forma que as religiosas são, simplesmente, freiras, ou então monjas (já para não falar dos leigos consagrados). Então estes e estas, que seguem uma vocação religiosa? Também se deviam casar? Ora, isso é impossível: viver em celibato faz parte da sua vocação, que não é outra senão viver os três conselhos evangélicos: pobreza voluntária, castidade perpétua e obediência inteira. É um modo de vida incompatível, sob diversos pontos de vista, com o matrimónio. Pode acontecer que os sacerdotes venham a deixar de ser celibatários, pois o sacerdócio não tem que estar obrigatoriamente ligado ao celibato. Mas a vida religiosa consagrada está absolutamente ligado ao celibato! Faz parte, não poderia existir de outra forma!
Portanto, o celibato existiria sempre na Igreja, mesmo que os sacerdotes deixassem de ser celibatários, pois a vocação à vida religiosa consagrada é sempre celibatária.
O celibato e a falta de vocações
Também não falta quem diga: “Se os padres se pudessem casar, até havia mais padres, porque alguns não vão para padres porque não se podem casar...”. Mas, se isso fosse verdade, não haveria falta de vocações entre os protestantes, cujos pastores se podem casar. O problema da falta de vocações não tem nada a ver com o celibato. A única verdadeira causa da crise de vocações é a falta de fé: se houver poucos jovens na Igreja, dificilmente os haverá no seminário!... Além disso, os que pensam que resolveriam a falta de vocações sacerdotais acabando com o celibato, como é que resolviam o problema da falta de vocações para a vida religiosa, que não pode ser senão celibatária? Para mais, o celibato é uma grande oportunidade de discernimento, que leva candidato a amadurecer a vocação e ajuda a seleccionar algumas falsas vocações. Além disso, ainda bem que “alguns não vão para padres porque não se podem casar”: é que ser padre não é um direito, nem uma coisa para quem quer, mas sim um chamamento de Deus.
“Mal empregado!”
“Mal empregado!”
Dizer de alguém “mal empregado ter ido para padre...” é um dos maiores disparates da história universal (mesmo que pretenda ser elogio). Como se o celibato fosse o destino natural de pessoas feias ou frustradas com a vida. E como se alguém fosse melhor “aproveitado” por estar comprometido apenas com uma pessoa (em vez de comprometido com Deus e com toda uma comunidade). É que as pessoas não são mercadoria para ser bem ou mal “empregadas” (o consumismo aplicado à sexualidade é que nos faz pensar isso). Olhando a vida tão frutuosa de grandes santos celibatários, mesmo os de bela aparência física, percebemos que não foram nada mal empregados, pelo contrário. Ao ver a beleza, tanto interior como exterior, de S. Teresinha do Menino Jesus, por exemplo, o que dá vontade de dizer é: “mal empregada mas era se não tivesse sido carmelita!”
Por amor do Reino dos Céus
Por amor do Reino dos Céus
Foi Cristo que instituiu o celibato! É da Sua vontade que ele exista. Não é uma vocação para todos, evidentemente, mas Cristo deixa claro que alguns são chamados a esse modo de vida: “Há eunucos que nasceram assim; há eunucos que foram feitos pelos homens; e há aqueles que se fazem eunucos por amor do Reino dos Céus” (Mt 19, 12). Isto é, há os que são obrigados a privarem-se das relações sexuais por deficiências da natureza ou causadas pelos homens; e há os que se privam delas voluntariamente “por amor do Reino dos Céus”. Isto é não só aprovado mas até sugerido por Cristo.
O celibato não é uma fuga
O celibato não é uma fuga
Mas o celibato não é fruto de um desgosto amoroso, como muitos imaginam,nem é um acto egoísta de quem evita os sacrifícios do casamento! O celibato é uma entrega feita por quem se sente feliz, é um acto de amor generoso. Diz o Papa Pio XII: “A virgindade não é virtude cristã se não é praticada "por amor do reino dos céus", isto é, para mais facilmente nos entregarmos às coisas divinas, para mais seguramente alcançarmos a bem-aventurança, e para mais livre e eficazmente podermos levar os outros para o reino dos céus. Não podem, portanto, reivindicar o título de virgens as pessoas que se abstêm do matrimónio por puro egoísmo, ou para evitarem os seus encargos (Sacra Virginitas, 12 e 13).
Precisamos dos celibatários!
Precisamos dos celibatários!
Se Cristo convida (alguns) ao celibato e se ele existiria sempre na Igreja, mesmo que os sacerdotes deixassem de ser celibatários, então é porque tem valor. A Igreja é um corpo (o Corpo místico de Cristo) e, como corpo, tem muitos membros diferentes. Os membros celibatários fazem parte desse corpo. Acabar com o celibato seria amputar um importantíssimo membro do Corpo de Cristo.
Afinal, o celibato esclarece o casamento!
Afinal, o celibato esclarece o casamento!
O teólogo protestante Max Thurian disse: «Quando é depreciada a vocação do celibato, também o é a do casamento» (é interessante que seja um protestante a dizê-lo). É sintomático que, onde quer que se negou, na Igreja, o direito de existência à virgindade, também não se reconheceu a natureza sacramental do matrimónio. A virgindade e o matrimónio iluminam-se mutuamente porque o seu modelo é o mesmo: a união de Cristo com a Igreja. São estados de vida complementares na Igreja que se evocam mutuamente.
A sociedade actual rejeita o celibato. O celibato faz confusão às pessoas! A larga maioria preferia que o celibato acabasse. Não é nada com eles, que não são celibatários, mas sentem-se incomodadíssimos! E o casamento? Afinal, descobrimos que também ele anda tão mal tratado por esta sociedade que detesta o celibato. Onde jovens não se casam e menos jovens se re-casam, é impossível que o celibato seja visto com bons olhos. Só quem compreende e aceita o matrimónio conforme a Igreja o propõe (com uma só pessoa e até que a morte os separe, em fidelidade) é que está preparado para aceitar também o celibato. Quem não aceita o casamento assim também não está preparado para entender o celibato. Se o mundo actual não aceita o casamento católico como é que há-de aceitar o celibato? Também hoje, mesmo entre “cristãos”, se confirma, uma vez mais, que quando a vocação do celibato é desvalorizada também o é a do casamento. Que isto nos sirva de exame de consciência.
Sempre houve celibato na Igreja
Sempre houve celibato na Igreja
Contra o celibato, muitos argumentam que, no início da Igreja, os padres e bispos não eram celibatários, mas respeitáveis pais de família. Isso é verdade: de facto, na Igreja primitiva, os sacerdotes eram, em geral, homens casados, e não necessariamente celibatários (embora alguns o fossem); no entanto, quem lembra essa verdade com tanta veemência esquece (ou pretende deixar esquecido…) que, embora os sacerdotes, inicialmente, não fossem obrigatoriamente celibatários, sempre houve na Igreja, desde o início, formas de celibato consagrado.
Ainda antes de haver congregações religiosas, já havia jovens raparigas que consagravam a sua virgindade a Cristo para serem esposas unicamente dEle. E não só raparigas mas também rapazes. Havia também viúvas que, não se tornando a casar, se consagravam igualmente a Cristo. Muitas das jovens mártires dessa época, que bem conhecemos e celebramos, consagraram a sua virgindade a Cristo, seu Esposo divino (S. Luzia, S. Cecília, S. Águeda, S. Inês, S. Bárbara, etc.).
Portanto, o celibato, de homens ou de mulheres, sempre existiu na Igreja!
Os abusos são fruto apenas da deturpação
Os abusos são fruto apenas da deturpação
Os tristes casos de pedofilia na Igreja que têm sido denunciados nada têm a ver com o celibato. Muitos dos pedófilos são casados: se praticam esse crime horroroso não é por falta de terem oportunidade de relações sexuais honestas. Os pedófilos, sejam eles quem forem, fazem-no porque são pessoas desequilibradas, e não por serem celibatários.
Ora, em primeiro lugar, há que lembrar que os padres, salvo raras e tristes excepções, são pessoas honestas e irrepreensíveis nesse ponto; em segundo lugar, essas tais tristes excepções são apenas uma pequeníssima parte dos pedófilos! Diz o Papa Francisco: “O celibato trazer como consequência a pedofilia está fora de questão. Mais de 70% dos casos de pedofilia ocorrem no ambiente familiar. Se um padre for pedófilo, é-o antes de ser padre. Ora, quando isso acontece, nunca se deverá tolerar. Não se pode assumir uma posição de poder e destruir a vida de outra pessoa.”
Obrigados a casar?
Obrigados a casar?
Não falta quem diga que o celibato é “contra-natura”, que não é uma realidade saudável nem possível de ser vivida, por causa da força dos instintos sexuais; há quem o veja como uma espécie de mutilação… Não admira que haja quem diga isto num mundo cada vez mais poluído pelos mais diversos tipos de pornografia. Mas dizer que o celibato é anti-natural ou que é impossível de ser realmente vivido, é a mesma coisa que querer obrigar toda a gente a casar... Mas nem toda a gente tem que se casar, há mais vocações para além do casamento.
A riqueza dos solteiros
A riqueza dos solteiros
Há pessoas que, mesmo sem terem feito qualquer voto de celibato, permanecem solteiras toda a vida, e por opção! Falamos, naturalmente, de verdadeiros solteiros/as, e não de “solteirões aventureiros”… nem de solteiros que vivem “juntos”, fazendo vida como se fossem casados… Não falamos desses, mas sim de tantas pessoas que são um bem para a comunidade pelo seu espírito de serviço e de generosidade, que é intensificado pela liberdade de tempo e movimento que a sua condição de solteiros lhes deixa. Será que a vida dessas pessoas deixa de ter sentido por serem solteiras? E a dos padres? Seria absurdo se assim fosse. Às vezes dá a impressão que os críticos do celibato querem obrigar a casar, a toda a força, pessoas que optaram por não casar, como se as pessoas não fossem livres de escolher o seu modo de vida, para além de esquecerem que o celibato é um chamamento e um dom que vêm de Deus, Aquele que está acima de tudo.
Não é fácil, mas...
Não é fácil, mas...
É certo que o celibato não é fácil de ser vivido, mas… será que casar resolve o problema? Quantos maridos e esposas infiéis!... O problema é muito mais profundo do que casar ou não casar: trata-se de ser fiel ou não ser fiel; há que viver a arte da fidelidade quer no celibato quer no casamento.
Sim, é possível ao padre ser fiel ao celibato: se confiar e viver na graça! O celibato é uma questão de fé, por isso quem não crê não consegue compreender o papel da graça no meio de todo este processo. Os críticos do celibato, geralmente, esquecem a graça, mas a graça é indispensável! Sem ela é impossível ser fiel. Só com a graça de Deus é que o celibatário consegue ser fiel, da mesma maneira que só com a graça é que os esposos conseguem ser fiéis um ao outro e por toda a vida. Aliás, a presença da graça é, exactamente, a grande diferença entre o sacramento do matrimónio e o casamento civil.
Há mais vida para além do sexo
Há mais vida para além do sexo
Os nossos meios de comunicação social repetem-nos, a toda a hora, que: “ninguém pode ser feliz sem ter sexo, muito sexo”. Mas o celibato é um testemunho contra essa perversão, e é tão incomodativo que há quem tente abafar esse testemunho fixando-se nos casos de alguns sacerdotes infiéis, procurando atingir todos, mesmo os que são fiéis. Num mundo saturado de sexo, cuja banalização e leviandade são vistas como algo normal ou até saudável, o celibato feliz de muitos mostra que, afinal, há mais vida para além do sexo! É verdade!...
Sinal do que há-de vir
Sinal do que há-de vir
O celibato é uma antevisão da eternidade. Jesus diz que os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento, mas, quando for a ressurreição, já não se vão casar nem dar-se em casamento (Lc 20 34-36). O matrimónio, embora seja um sacramento, é algo que pertence, apenas, a este mundo, uma vez que dura “até que a morte os separe”. O celibato, por sua vez, não é “deste mundo”, não faz sentido senão tendo em conta o mundo futuro. Aqueles que o vivem são um testemunho vivo da fé na vida eterna e daquilo que hão-de ser os que tomarem parte na ressurreição. O celibato é, então, uma questão de eternidade.
O celibato põe-nos à prova
O celibato põe-nos à prova
Se é uma questão de eternidade, então é uma questão de fé! Perante uma opção de vida tão radical, aquele que é chamado ao celibato é posto à prova, como se alguém lhe dissesse: “Acreditas mesmo ou não? Estás nisto a sério, de todo o coração? Cristo é tudo para ti, ou achas que é só uma fantasia à qual entregas, apenas, uma parte do teu tempo? Se amas mesmo a Cristo, entrega-te totalmente a Ele.” E, até para quem não é celibatário, uma entrega tão radical como o celibato lembra que, afinal, a fé é qualquer coisa bem real: não é um conto, não é umas histórias, não é apenas uns valores; quem tem fé acredita que Cristo está mesmo vivo, e as pessoas que deixam de se casar por causa d’Ele acordam-nos para essa verdade.
O celibato (tanto para quem o vive como para os outros) “encosta-nos à parede” e coloca-nos a grande questão: afinal, a fé, para ti, é a sério ou é só uma história? O celibato aí vai continuar: escandalizando uns, fortalecendo a fé de outros… depende da confiança que cada um tiver em Deus. Ainda bem que contamos com o testemunho fiel e feliz de muitos que nos dizem, com a sua própria vida, que Cristo está vivo e que a fé não é uma “léria”.
Haja celibatários! São, sem dúvida, uma grande riqueza na Igreja.
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quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Direito a ser Padre?
Publicado em jornais, há uns tempos atrás, como resposta a um artigo em que um Padre defendia a ordenação das mulheres.
Embora pouco cobiçada, a vida de Padre é vista por muitas pessoas como um direito, como uma coisa para quem quer. Deste erro parte a avaliação igualmente errada que muitas pessoas fazem das restrições da Igreja no que toca ao acesso às ordens sacras. É desta perspectiva desacertada, que vê a Igreja como uma empresa ou associação e o sacramento da Ordem como um cargo de poder e não de serviço, que derivam questões como: “Ele queria ser Padre mas não o deixaram”; “Os Padres deviam casar porque muitos gostavam de ser Padres e não vão por não se poderem casar”; e ainda “As mulheres têm direito a ser ordenadas e a ter poder de decisão na Igreja”.
Ora, a questão é que ninguém tem direito a ser Padre! Eu não tenho direito a ser Padre: a Igreja é que tem direito a que eu seja Padre, a que haja alguém que, enviado por Deus, lhe administre os sacramentos e alimente com a Palavra de Deus. Porque ser Padre é uma questão de os cristãos terem acesso aos sacramentos, e não de poder. Eu não sou Padre por causa de mim, nem para minha consolação pessoal: embora feliz por ser Padre, sou-o por causa de uma necessidade que a Igreja tem, e não fazia sentido ser de outra maneira.
Porque ser Padre não é uma questão de “ter direito”, a Igreja deve “filtrar” os candidatos e não deixar ordenar aqueles que descobrir que não são idóneos.
Do mesmo modo, o celibato tem a vantagem de percebermos que ser Padre não é “uma profissão como as outras”, como diz o povo.
Colocar a questão da ordenação de mulheres numa perspectiva de “ter poder” na Igreja é, no mínimo, colocar mal a questão. Não precisamos de quem queira vir mandar na Igreja. Precisamos é de quem queira vir servir a Igreja, de quem esteja disposto a deitar-se tarde e levantar-se cedo para celebrar a Missa em tantas paróquias sem Eucaristia, para acompanhar a vida espiritual e pastoral nas nossas cada vez maiores unidades pastorais, para ter a catequese em ordem, para fazer as reuniões, para resolver os problemas chatos dos centros sociais, para fazer a actividade com os jovens, para resolver os conflitos pouco agradáveis com a Fábrica da Igreja, para visitar os doentes, para confessar uma igreja cheia... Tudo isso custa muito, e tem a ver apenas com amor à Igreja, e não com direito a ser coisa nenhuma. Quem se acha com tantos direitos perante o sacramento da Ordem será que quer ser ordenado/a por amor a Deus e à Igreja ou apenas por amor a si próprio? Deus nos livre de a Igreja ser invadida, na sua hierarquia, por pessoas sedentas de poder e de ascensão pessoal em vez de espírito de serviço! Se já as há por lá, não queiramos lá mais!
Embora pouco cobiçada, a vida de Padre é vista por muitas pessoas como um direito, como uma coisa para quem quer. Deste erro parte a avaliação igualmente errada que muitas pessoas fazem das restrições da Igreja no que toca ao acesso às ordens sacras. É desta perspectiva desacertada, que vê a Igreja como uma empresa ou associação e o sacramento da Ordem como um cargo de poder e não de serviço, que derivam questões como: “Ele queria ser Padre mas não o deixaram”; “Os Padres deviam casar porque muitos gostavam de ser Padres e não vão por não se poderem casar”; e ainda “As mulheres têm direito a ser ordenadas e a ter poder de decisão na Igreja”.
Ora, a questão é que ninguém tem direito a ser Padre! Eu não tenho direito a ser Padre: a Igreja é que tem direito a que eu seja Padre, a que haja alguém que, enviado por Deus, lhe administre os sacramentos e alimente com a Palavra de Deus. Porque ser Padre é uma questão de os cristãos terem acesso aos sacramentos, e não de poder. Eu não sou Padre por causa de mim, nem para minha consolação pessoal: embora feliz por ser Padre, sou-o por causa de uma necessidade que a Igreja tem, e não fazia sentido ser de outra maneira.
Porque ser Padre não é uma questão de “ter direito”, a Igreja deve “filtrar” os candidatos e não deixar ordenar aqueles que descobrir que não são idóneos.
Do mesmo modo, o celibato tem a vantagem de percebermos que ser Padre não é “uma profissão como as outras”, como diz o povo.
Colocar a questão da ordenação de mulheres numa perspectiva de “ter poder” na Igreja é, no mínimo, colocar mal a questão. Não precisamos de quem queira vir mandar na Igreja. Precisamos é de quem queira vir servir a Igreja, de quem esteja disposto a deitar-se tarde e levantar-se cedo para celebrar a Missa em tantas paróquias sem Eucaristia, para acompanhar a vida espiritual e pastoral nas nossas cada vez maiores unidades pastorais, para ter a catequese em ordem, para fazer as reuniões, para resolver os problemas chatos dos centros sociais, para fazer a actividade com os jovens, para resolver os conflitos pouco agradáveis com a Fábrica da Igreja, para visitar os doentes, para confessar uma igreja cheia... Tudo isso custa muito, e tem a ver apenas com amor à Igreja, e não com direito a ser coisa nenhuma. Quem se acha com tantos direitos perante o sacramento da Ordem será que quer ser ordenado/a por amor a Deus e à Igreja ou apenas por amor a si próprio? Deus nos livre de a Igreja ser invadida, na sua hierarquia, por pessoas sedentas de poder e de ascensão pessoal em vez de espírito de serviço! Se já as há por lá, não queiramos lá mais!
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quinta-feira, 31 de outubro de 2013
O novo acordo ortográfico e o reaccionário que há em cada um de nós
Não gosto do novo acordo ortográfico. Temos pena, mas não gosto, e, já que a nossa sociedade se gaba se ser tão pluralista, então tem que me aceitar assim…
Porém, sempre que falo no assunto, quase sempre os meus interlocutores me devolvem: “eu também não!”. Surpreendido (ou talvez não), vou encontrando cada vez mais pessoas em desacordo com o acordo. Vidas reais de pessoas que vivem o drama de serem obrigadas (por trabalharem em instituições públicas, por exemplo) a escrever de uma forma que lhes causa aversão, ou então outros que se podem dar ao luxo de, pura e simplesmente, dizer que continuam a escrever como sempre escreveram, venha quem vier e doa a quem doer!
Será que os meus interlocutores são todos reaccionários? Ou será que há um sentimento mais amplo de ruptura com as modernices e o “português antigo” promete continuar actual?
Talvez haja um um reaccionário em cada um de nós...
Novo acordo ortográfico? Solta o reaccionário que há em ti!
Porém, sempre que falo no assunto, quase sempre os meus interlocutores me devolvem: “eu também não!”. Surpreendido (ou talvez não), vou encontrando cada vez mais pessoas em desacordo com o acordo. Vidas reais de pessoas que vivem o drama de serem obrigadas (por trabalharem em instituições públicas, por exemplo) a escrever de uma forma que lhes causa aversão, ou então outros que se podem dar ao luxo de, pura e simplesmente, dizer que continuam a escrever como sempre escreveram, venha quem vier e doa a quem doer!
Será que os meus interlocutores são todos reaccionários? Ou será que há um sentimento mais amplo de ruptura com as modernices e o “português antigo” promete continuar actual?
Talvez haja um um reaccionário em cada um de nós...
Novo acordo ortográfico? Solta o reaccionário que há em ti!
sábado, 26 de outubro de 2013
A Fé
(Apresentado na Ultreia de 25-10-2013 na Sé Nova)
Com efeito, quem será tão malévolo para com a humanidade e tão inimigo de Deus que pretenda impedir este progresso?
Mas é preciso que seja um verdadeiro progresso da fé e não uma alteração da fé. Verifica-se um verdadeiro progresso quando uma coisa se desenvolve sem deixar de ser ela mesma; dá-se uma alteração quando deixa de ser o que é, e se transforma noutra.
É necessário portanto que, através das idades e dos 4 séculos, cresça e se desenvolva continuamente a inteligência, a ciência e a sabedoria de todos e cada um, de cada homem e de toda a Igreja Mas este desenvolvimento ria fé deve dar-se segundo a sua natureza, isto é, conservando a identidade do dogma, da doutrina e do seu significado.
O conhecimento religioso das almas imita no seu desenvolvimento a estrutura dos corpos Estes crescem e desenvolvem-se através dos anos, mas conservam sempre a sua natureza. Há uma grande diferença entre a flor da infância e a maturidade da velhice; mas os que atingem a velhice são os mesmos que outrora eram adolescentes. Mudam a condição física e a aparência do homem; no entanto continua igual a sua natureza, permanece idêntica a sua pessoa.
São pequenos os membros dos recém-nascidos e grandes os dos jovens; e contudo, os membros são os mesmos.
Os adultos têm o mesmo número de órgãos que as crianças e se é verdade que alguns órgãos vão aparecendo com o processo de desenvolvimento, eles encontravam-se já incluídos no embrião, de tal modo que nada de novo se revela nos mais velhos que não estivesse já latente nas crianças.
Sobre isto não há dúvida alguma. É esta a norma legítima de todo o progresso, são estas as eis maravilhosas de todo o crescimento: com o decorrer dos anos, vão-se manifestando nos adultos aquelas perfeições que a sabedoria do Criador tinha formado previamente no corpo do recém-nascido.
Se um ser humano mudasse de tal modo que viesse a apresentar uma estrutura não correspondente a sua espécie. quer aumentando quer subtraindo algum dos seus membros, necessariamente pereceria todo o organismo ou converter-se-ia num ser monstruoso ou pelo menos ter-se-ia gravemente deformado. Também o dogma da religião cristã deve seguir estas leis de desenvolvimento: fortalece-se com o decorrer dos anos, desenvolve-se através das idades, cresce com o andar dos tempos.
Os nossos antepassados semearam outrora neste campo da Igreja a semente da fé. Seria gravemente iníquo e incongruente que nós, seus descendentes, substituíssemos a autêntica verdade daquele trigo pelo erro da cizânia.
A retidão e a coerência exigem que não haja contradição entre a raiz e os seus frutos: se eles semearam o trigo da verdadeira doutrina, o fruto que se há-de colher é o trigo do verdadeiro dogma; e se há sempre alguma porção daquelas primitivas sementes que se pode ainda desenvolver com o andar dos tempos, isso deve continuar a ser objeto de uma feliz e frutuosa cultura.
“A fé é garantia das coisas que se esperam e certeza
daquelas que não se vêem.”
(Hebreus 11, 1)
(Hebreus 11, 1)
A fé, tal como a
esperança, é para este mundo, para esperar com perseverança aquilo que ainda
não vemos, enquanto não chegamos a essa meta em que veremos Deus face a face. A
fé, lança-nos, portanto, para o futuro.
E, por isso, é a coragem de ultrapassar as aparências, de ver para a além do
que é visível.
Rom 8, 22-27:
“Nós sabemos que
toda a criatura geme ainda agora e sofre as dores da maternidade. E não só ela,
mas também nós, que possuímos as primícias do Espírito, gememos interiormente,
esperando a adopção filial e a libertação do nosso corpo. É em esperança que estamos salvos, pois ver o que se espera não é
esperança: quem espera o que já vê? Mas esperar o que não vemos é esperá-lo com
perseverança. Também o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza,
porque não sabemos o que pedir nas nossas orações; mas o próprio Espírito
intercede por nós com gemidos inefáveis.”
Acerca de Abraão,
que acreditou na promessa de Deus e morreu ainda antes do seu cumprimento
total, mas acreditando que Deus não falharia, diz o Catecismo da Igreja
Católica:
146. Abraão realiza assim a definição da fé dada pela
Epístola aos Hebreus: «A fé constitui a garantia dos bens que se esperam, e a
prova de que existem as coisas que não se vêem» (Heb 11, 1). «Abraão
acreditou em Deus, e isto foi-lhe atribuído como justiça» (Rm 4, 3).
«Fortalecido» por esta fé (Rm 4, 20), Abraão tornou-se «o pai de todos
os crentes» (Rm 4, 11. 18).
Isto coloca-nos
várias interrogações…
Deus existe?
É possível chegar a
Deus observando a natureza e o universo. Há uma “teologia natural”, ou “teologia
filosófica”, com base na inteligibilidade do universo.
Para muitos
cientistas, a forma como o caos se encaminha inexplicavelmente no sentido de gerar
espontaneamente a ordem (o que aconteceu no processo da formação do universo, e
não só…), a maneira como todo o cosmos parece “conspirar” a favor do
aparecimento (e da manutenção!) da vida, tudo isso revela, para eles, atributos
divinos, como consciência e intenção.
A grande questão da
filosofia é “por que existe alguma coisa em vez do nada?” (Leibniz). Imaginemos
o nada… qualquer coisa que existisse, por minúscula que fosse, teria já o
“super-poder” de aniquilar o nada! Pois aí existiria já alguma coisa…
Ora, se existe
alguma coisa (disso nós temos 100% a certeza, quanto mais não seja porque se
“penso, logo existo” (Descartes)), então é porque algo ou Alguém teve que dizer
um grande “sim” para que exista alguma coisa em vez de nada! (YouCat, preparação
para o Crisma).
Se o mundo existe é
porque algo o gerou; e algo que tem que ser exterior a ele, algo que transcenda
o universo, pois aquilo que o provocou não pode fazer parte dele; aquilo que
fez irromper o espaço e o tempo não pode fazer parte do espaço e do tempo!
(YouCat)
Por isso, muitos
(cientistas, filósofos) chegam à conclusão que existe um deus observando a
inteligibilidade que marca o universo, a maneira sábia como a natureza está
organizada, como se fosse um relógio. Este mundo é uma “máquina” tão perfeita
que tem que haver uma inteligência por trás dela.
Só que esse deus
relojoeiro, o deus dos filósofos, ainda não é o Deus de Israel nem de Jesus
Cristo. Esse deus nem sequer é pessoal. É apenas uma inteligência cósmica
universal, abstrata, não uma pessoa. Esse é o deus da maçonaria, não é o Deus
da revelação (por isso a Igreja deixa bem claro que não se pode ser cristão e
maçon ao mesmo tempo). E um deus assim até um ateu quase podia aceitar.
Ao deus dos
filósofos e dos cientistas chega-se pela luz natural da razão; mas para chegar
ao nosso Deus não basta a nossa inteligência, é preciso que Deus Se revele…
Deus é Pessoa (a Aliança)
Abraão, o nosso pai
na fé: o primeiro homem a quem Deus falou, isto é, a quem Se revelou. Com ele
estabeleceu uma aliança:
«Deixa a tua terra,
a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti um grande povo, abençoar-te-ei, engrandecerei o teu
nome e serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te
abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem. E todas as famílias da
Terra serão em ti abençoadas.» (Gn 12, 1-3).
O conceito de
aliança é fundamentalíssimo em toda
a Sagrada Escritura, que é como quem diz, em toda a história de Deus com os
homens. Uma aliança só pode ser firmada entre pessoas. O nosso Deus é pessoa e revela-Se aos homens
comunicando-lhes os seus desígnios de amor e até estabelecendo aliança com
eles.
A fé não é um
conjunto de valores, nem de ideias, nem de normas morais, porque normas e
valores morais também os têm as pessoas sem fé… Embora a fé tenha consequências
morais (se não as tivesse seria uma hipocrisia), não se resume a elas e nem
sequer consiste nelas: a fé é uma relação
viva com Alguém que eu acredito e
sei que está vivo. E a relação só acontece entre pessoas, como é o caso da aliança. Mesmo que as tábuas da Lei possam
ser o documento marcante de uma aliança, o compromisso não é com essas normas
morais, mas com um Deus que é pessoa.
Deus é Trindade!
Mas em Cristo Deus
estabeleceu uma Nova Aliança. E com Cristo descobrimos que Deus não só é pessoa
como até é três Pessoas! A Santíssima Trindade, o único caso em que três
Pessoas não são três deuses mas um só Deus.
Também é caso único
em toda a história Deus fazer-Se homem. Por isso, Jesus Cristo, tornando-Se verdadeiro
homem sem deixar de ser, ao mesmo tempo, verdadeiro Deus, é a maior revelação
que Deus podia fazer de Si mesmo. Depois que o próprio Deus veio ter connosco
para viver a nossa vida, em tudo igual a nós excepto no pecado, está dito tudo
o que havia a dizer sobre Deus; está dita a mais bela Palavra de Deus à
humanidade. Por isso, Jesus bem pode dizer: “ninguém vai ao Pai senão por Mim”
(Jo 14, 16).
A morte de um outro
qualquer não teria o poder de nos salvar; mas, porque Ele é o Filho de Deus e é
Deus com o Pai, o seu sacrifício voluntário, morrendo por nosso amor na cruz,
tem o poder de nos perdoar os pecados e nos dar a vida eterna.
Deus é Amor!
A Santíssima Trindade
é um mistério insondável para a nossa inteligência e linguagem, que são humanas
e, portanto, limitadas. No entanto, descobrimos que faz todo o sentido Deus ser
Trindade! Dizer que Deus é Trindade é, no fim de contas, dizer que Deus é Amor.
Se Deus é Trindade, então não é solidão,
mas Amor. A comunicação de Amor no seio da própria Trindade Santíssima diz-nos
que Deus é Amor em Si Mesmo. Como o amor não se vive sozinho, o mistério da
Santíssima Trindade revela-nos que, mesmo ainda antes de criar o homem, Deus já
era Amor em Si mesmo.
Como é pobre
ficarmo-nos apenas por dizer “Deus existe”! Não nos preocupa apenas saber se
Deus existe (os ateus é que se ficam por aí, e para negar, claro). Não nos
preocupa apenas saber se Deus existe: nós queremos saborear o Seu amor!
A aventura de crer
Isto lança-nos na
aventura que é crer. Aventura porque crer tem o seu risco. Mas é também, por isso
mesmo, é uma atitude de amor, já que estou a confiar mesmo sem ter todas as
evidências a 100%: há uma parte gratuita (e, portanto, de doação amorosa) no
meu acto de crer.
A fé é a resposta do
homem à revelação que Deus faz de Si Mesmo. Diz o Catecismo da Igreja Católica:
142. Pela sua revelação, «Deus invisível, na riqueza do seu amor, fala aos
homens como amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à comunhão
com Ele». A resposta adequada a este convite é a fé.
143. Pela fé, o
homem submete completamente a Deus a inteligência e a vontade; com todo o seu
ser, o homem dá assentimento a Deus revelador. A Sagrada Escritura chama
«obediência da fé» a esta resposta do homem a Deus revelador.
154. O acto de fé
só é possível pela graça e pelos auxílios interiores do Espírito Santo. Mas
não é menos verdade que crer é um acto
autenticamente humano. Não é
contrário nem à liberdade nem à inteligência do homem confiar em Deus e aderir
às verdades por Ele reveladas. Mesmo nas relações humanas, não é contrário
à nossa própria dignidade acreditar no que outras pessoas nos dizem acerca de
si próprias e das suas intenções, e confiar nas suas promessas […]
156. O motivo de crer não é o facto de as verdades
reveladas aparecerem como verdadeiras e inteligíveis à luz da nossa razão
natural. Nós cremos «por causa da autoridade do próprio Deus revelador, que não
pode enganar-se nem enganar-nos». «Contudo,
para que a homenagem da nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os
auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados de provas exteriores
da sua Revelação». Assim, os milagres de Cristo e dos santos, as profecias,
a propagação e a santidade da Igreja, a sua fecundidade e estabilidade «são
sinais certos da Revelação, adaptados à inteligência de todos», «motivos de
credibilidade», mostrando que o assentimento da fé não é, «de modo algum, um
movimento cego do espírito».
160. Para ser humana, «a resposta da fé, dada pelo homem a
Deus, deve ser voluntária. Por conseguinte, ninguém deve ser constrangido a
abraçara fé contra vontade. Efectivamente, o acto de fé é voluntário por sua
própria natureza»
A minha fé é a fé da Igreja!
“Eu cá tenho a minha
fé”!?... Eu cá tenho a fé da Igreja!
É verdade que a fé minha
na medida em que é decisão pessoal; tenho que ser eu a assumi-la; a fé não
nasce enquanto Jesus Cristo for Alguém de Quem eu ouvi falar, mas só nasce
quando eu faço experiência de Jesus Cristo. A fé é decisão pessoal… mas, para
que seja sólida, há que ser não apenas a “minha fé”: precisa de ser a fé da
Igreja!
Quando tenho a
“minha fé”, tenho uma fé subjectiva, criada por mim, á minha maneira, de acordo
com as minhas opiniões (que podem estar muito certas ou muito erradas) e, acima
de tudo, de acordo com as minhas conveniências. Uma fé que é apenas a “minha
fé” o mais certo é ser apenas um produto da minha imaginação.
Pelo contrário,
quando assumo como minha a fé da Igreja, estou a dar o meu assentimento a algo
que é maior do que eu próprio! A algo que vem de muito antes de mim; e antes de
mim não é só dos meus pais ou avós: é desde os Apóstolos! Que é o mesmo que
dizer desde Cristo! E aí eu não erro, pois estou a sair do horizonte da minha
simples opinião falível.
A sucessão apostólica
Muitos discípulos
seguiam Jesus, mas de entre eles Jesus escolheu doze apóstolos. Os apóstolos eram
discípulos, mas nem todos os discípulos eram apóstolos. Aqueles doze Jesus
preparou-os de um modo especial para uma missão especial. A eles confiou o
ministério do sacerdócio, do perdão dos pecados, de expulsar demónios, de serem
os alicerces da sua Igreja.
E, como eles eram
mortais e não iam durar para sempre, transmitiram esse dom, esse ministério que
receberam directamente de Cristo, a outros que continuassem a missão ao longo
dos tempos, pelo gesto da imposição das mãos, isto é, a ordenação (mesmo que
inicialmente não fosse ainda chamada com esse nome). E esses, por sua vez,
impuseram as mãos a outros, e esses a outros… até chegar aos nossos bispos
actuais. Há, portanto, uma cadeia ininterrupta desde os doze apóstolos de
Cristo até cada um dos nossos bispos actuais. Chamamos a isto “sucessão
apostólica”. Os bispos são sucessores dos apóstolos e é esta cadeia de sucessão
de ordenações válidas e sem interrupções, sem quebrar a cadeia que vem desde os
apóstolos, [é isto] que garante a eficácia dos sacramentos e a fé autêntica.
Este ministério de
ser pastor da Igreja e de garantir a verdadeira fé e a eficácia dos sacramentos
foi dado por Cristo aos apóstolos (e, portanto, aos seus sucessores), a começar
por Pedro, que Cristo estabeleceu como o primeiro entre eles:
«Tu és Pedro, e
sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão
contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que
ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será
desligado no Céu.» (Mt 16, 18-19).
A São Pedro, para
além de ter sido confiado o mesmo ministério que aos outros apóstolos, Jesus
ainda confiou mais a missão de confirmar os seus irmãos na fé: «Simão, Simão,
olha que Satanás pediu para vos joeirar como trigo. Mas Eu
roguei por ti, para que a tua fé não desapareça. E tu, uma vez convertido,
fortalece os teus irmãos.» (Lc 22, 31-32).
De facto, conhecemos
o nome de todos os Papas desde São Pedro até ao Papa Francisco, uma cadeia de
sucessão ininterrupta que faz com que cada um desses homens ao longo dos tempos
fosse Pedro, a garantir a unidade da igreja, a confirmar os irmãos a unidade de
uma mesma fé.
Perante tudo isto,
compreendemos agora ainda melhor como é ridículo alguém dizer “eu cá tenho a
minha fé” e achar que ainda é mais católico do que os outros.
Não se pode ser
católico (e, atrevo-me ousadamente a dizer que até, de algum modo, não se pode
ser completamente cristão) sem estar em comunhão com a única Igreja que está
fundada “sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, tendo por pedra angular
o próprio Cristo Jesus” (Ef 2, 20). Estar com o Bispo é estar com a Igreja e
ter a fé autêntica; estar em comunhão com o Papa é estar em comunhão com a
verdadeira fé.
FIM
* * *
TEXTOS EXTRA…
Ef 2 - Judeus e pagãos unidos em Cristo - 11Lembrai-vos, portanto,
de que vós outrora - os gentios na carne, os chamados incircuncisos por aqueles
que se chamavam circuncisos, com uma circuncisão praticada na carne - 12lembrai-vos de que nesse tempo estáveis sem Cristo,
excluídos da cidadania de Israel e estranhos às alianças da promessa, sem
esperança e sem Deus no mundo. 13Mas em Cristo Jesus,
vós, que outrora estáveis longe, agora, estais perto, pelo sangue
de Cristo. 18Porque,
é por Ele que uns e outros, num só Espírito, temos acesso ao Pai. 19Portanto, já
não sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois concidadãos dos santos e membros
da casa de Deus, 20edificados sobre o alicerce dos
Apóstolos e dos Profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus. 21É nele que toda a construção, bem ajustada, cresce
para formar um templo santo, no Senhor. 22É nele que
também vós sois integrados na construção, para formardes uma habitação de Deus,
pelo Espírito.
1ª Tim 1
3Quando parti para a Macedónia, recomendei-te que
ficasses em Éfeso, para dissuadir alguns de ensinarem doutrinas estranhas 4e de se ocuparem de fábulas ou de genealogias
intermináveis, que favorecem mais as discussões do que o desígnio de Deus que
se realiza na fé. 5O objectivo desta recomendação é o amor que procede de
um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera. 6Por
se terem afastado desta linha, alguns perderam-se em discursos vãos. 7Pretendendo
serem mestres da lei, não sabem nem o que dizem, nem o que afirmam com tanta
segurança.
A evolução do dogma cristão - Da Primeira Exortação de S. Vicente de Lerins,
presbítero (Sec. V)
Não haverá progresso
algum dos conhecimentos religiosos na Igreja de Cristo? Há, sem dúvida, e muito
grande.Com efeito, quem será tão malévolo para com a humanidade e tão inimigo de Deus que pretenda impedir este progresso?
Mas é preciso que seja um verdadeiro progresso da fé e não uma alteração da fé. Verifica-se um verdadeiro progresso quando uma coisa se desenvolve sem deixar de ser ela mesma; dá-se uma alteração quando deixa de ser o que é, e se transforma noutra.
É necessário portanto que, através das idades e dos 4 séculos, cresça e se desenvolva continuamente a inteligência, a ciência e a sabedoria de todos e cada um, de cada homem e de toda a Igreja Mas este desenvolvimento ria fé deve dar-se segundo a sua natureza, isto é, conservando a identidade do dogma, da doutrina e do seu significado.
O conhecimento religioso das almas imita no seu desenvolvimento a estrutura dos corpos Estes crescem e desenvolvem-se através dos anos, mas conservam sempre a sua natureza. Há uma grande diferença entre a flor da infância e a maturidade da velhice; mas os que atingem a velhice são os mesmos que outrora eram adolescentes. Mudam a condição física e a aparência do homem; no entanto continua igual a sua natureza, permanece idêntica a sua pessoa.
São pequenos os membros dos recém-nascidos e grandes os dos jovens; e contudo, os membros são os mesmos.
Os adultos têm o mesmo número de órgãos que as crianças e se é verdade que alguns órgãos vão aparecendo com o processo de desenvolvimento, eles encontravam-se já incluídos no embrião, de tal modo que nada de novo se revela nos mais velhos que não estivesse já latente nas crianças.
Sobre isto não há dúvida alguma. É esta a norma legítima de todo o progresso, são estas as eis maravilhosas de todo o crescimento: com o decorrer dos anos, vão-se manifestando nos adultos aquelas perfeições que a sabedoria do Criador tinha formado previamente no corpo do recém-nascido.
Se um ser humano mudasse de tal modo que viesse a apresentar uma estrutura não correspondente a sua espécie. quer aumentando quer subtraindo algum dos seus membros, necessariamente pereceria todo o organismo ou converter-se-ia num ser monstruoso ou pelo menos ter-se-ia gravemente deformado. Também o dogma da religião cristã deve seguir estas leis de desenvolvimento: fortalece-se com o decorrer dos anos, desenvolve-se através das idades, cresce com o andar dos tempos.
Os nossos antepassados semearam outrora neste campo da Igreja a semente da fé. Seria gravemente iníquo e incongruente que nós, seus descendentes, substituíssemos a autêntica verdade daquele trigo pelo erro da cizânia.
A retidão e a coerência exigem que não haja contradição entre a raiz e os seus frutos: se eles semearam o trigo da verdadeira doutrina, o fruto que se há-de colher é o trigo do verdadeiro dogma; e se há sempre alguma porção daquelas primitivas sementes que se pode ainda desenvolver com o andar dos tempos, isso deve continuar a ser objeto de uma feliz e frutuosa cultura.
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sexta-feira, 31 de maio de 2013
Dia Santo (Corpo de Deus)
Ontem, pela primeira vez, não celebrámos o Corpo de Deus no dia próprio. De manhã, ao subir a serra, dos Cavaleiros para Fajão, a estrada, do lado contrário, estava coberta de flores. As pétalas das giestas, amarelas e abundantes, cairam de maduras com a chuva e o vento da noite. Talvez ainda não tivessem passado muitos carros em sentido contrário e, coincidência ou não, a via parecia ter sido enfeitada como se fosse para a procissão do Santíssimo Sacramento. Logo me lembrei: hoje é dia de Corpo de Deus!
Ao chegar à igreja, celebrei a Missa votiva da Santíssima Eucaristia, seguindo a opção de usar as orações da Missa do dia de Corpo de Deus, e até as leituras. Sentia que tinha que o fazer. E, para mim e para as pessoas que lá estavam, foi Dia de Corpo de Deus, tal como o era em toda a Igreja!
Ao chegar à igreja, celebrei a Missa votiva da Santíssima Eucaristia, seguindo a opção de usar as orações da Missa do dia de Corpo de Deus, e até as leituras. Sentia que tinha que o fazer. E, para mim e para as pessoas que lá estavam, foi Dia de Corpo de Deus, tal como o era em toda a Igreja!
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domingo, 14 de agosto de 2011
I want to break free!
Quem já assumiu algumas responsabilidades sabe que a liberdade é uma questão de coragem. Há momentos em que a liberdade autêntica está tão longe de “fazer o que apetece”! Tão longe!
Liberdade é ter CORAGEM para tomar as atitudes certas, mesmo que doa. Quer doa aos outros, quer nos doa a nós. Porque quem tem responsabilidades sabe que tudo na vida tem consequências. De facto, nem toda a gente sabe que cada escolha que faz tem as suas consequências. Até não escolher tem consequências!
Ser livre é ser capaz de tomar decisões que, embora sejam as necessárias, são pouco populares. Quem é livre toma essas decisões mesmo sabendo que alguns o hão-de criticar, às vezes até mentido.
Mas, quando temos essa coragem, quando sabemos as consequências das coisas e somos capazes de evitar o pior, que sensação de liberdade! Liberdade autêntica!
Liberdade é ter CORAGEM para tomar as atitudes certas, mesmo que doa. Quer doa aos outros, quer nos doa a nós. Porque quem tem responsabilidades sabe que tudo na vida tem consequências. De facto, nem toda a gente sabe que cada escolha que faz tem as suas consequências. Até não escolher tem consequências!
Ser livre é ser capaz de tomar decisões que, embora sejam as necessárias, são pouco populares. Quem é livre toma essas decisões mesmo sabendo que alguns o hão-de criticar, às vezes até mentido.
Mas, quando temos essa coragem, quando sabemos as consequências das coisas e somos capazes de evitar o pior, que sensação de liberdade! Liberdade autêntica!
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quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Pobreza, uma realidade desconcertante
Testemunho solicitado por Carlos Neves, da Cáritas Diocesana de Coimbra, para uma sebenta sobre a pobreza.
A pobreza é uma realidade complexa, com muitas facetas. Não se pode olhar para ela de uma forma simplista, nem fácil, nem descomprometida. Dando o meu testemunho, posso dizer que, por um lado, vejo a crueldade, ignorância e incompreensão de tantas pessoas; por outro lado, descubro em mim muitas barreiras que me impedem de compreender e actuar.
A desconfiança! Minha e dos outros. Pergunto-me muitas vezes: será que esta associação que me vem pedir é credível? Será que esta pessoa precisa mesmo ou me está a enganar? Também oiço muitas pessoas a dizer que não dão para este ou aquele peditório porque acham que depois nada é entregue àquele destino.
Uma culpa associada à pobreza! O caso do drogado ou do alcoólico. A desorientação daquele que se endivida comprando obsessivamente coisas supérfluas que depois não pode pagar, chegando ao ponto de haver alguns dias em que não tem dinheiro, por exemplo, para algo tão básico como almoçar! Perante estes casos surge a pergunta: é uma espécie de doença ou trata-se de uma culpa moral com o consequente castigo? Como agir quando a própria pessoa é, de algum modo, culpada pela situação de pobreza que vive? Não sei, mas é, sem dúvida, desconcertante! É fácil dizer «foi bem feito, quem o mandou meter-se naquilo?». No entanto, a caridade lembra-nos que se trata de um caso de pobreza para resolver.
A hipocrisia e a má vontade de tantas instituições responsáveis a nível local, tais como: autarquias sempre adiam “sine die” as soluções dos problemas concretos, ou que sempre encontram um oportuno entrave burocrático ou de jurisdição; assistentes sociais que deixam perpetuar casos “eternos”; comissões locais onde apenas se fala mas não se age.
A incompreensão da pobreza associada a outras misérias: álcool, droga… Destaco, sobretudo, a prostituição: na cabeça da maioria das pessoas, as prostitutas continuam a ser mulheres preguiçosas que fizeram uma opção pela vida fácil para ganhar dinheiro sem esforço ou até pelo prazer! Mas… será (sempre) assim?
Outro aspecto muito importante e que nem sempre é claro para toda a gente: a pobreza não significa necessariamente miséria! Por isso, a pobreza nem sempre é visível, por isso tantas vezes nos escapa sem que sejamos sequer capazes de a identificar. Uma pessoa ou família pode ter necessidade de alguns bens importantes e passar algumas privações mais ou menos graves sem, no entanto, viverem um grau de pobreza extrema.
A pobreza raramente é visível: tanto é real em pessoas que parecem de nada precisar como é fingida em pessoas que vivem bem embora aparentem passar miseravelmente. É uma realidade complexa e que eu sinto, acima de tudo, como algo profundamente desconcertante aos mais variados níveis.
A pobreza é uma realidade complexa, com muitas facetas. Não se pode olhar para ela de uma forma simplista, nem fácil, nem descomprometida. Dando o meu testemunho, posso dizer que, por um lado, vejo a crueldade, ignorância e incompreensão de tantas pessoas; por outro lado, descubro em mim muitas barreiras que me impedem de compreender e actuar.
A desconfiança! Minha e dos outros. Pergunto-me muitas vezes: será que esta associação que me vem pedir é credível? Será que esta pessoa precisa mesmo ou me está a enganar? Também oiço muitas pessoas a dizer que não dão para este ou aquele peditório porque acham que depois nada é entregue àquele destino.
Uma culpa associada à pobreza! O caso do drogado ou do alcoólico. A desorientação daquele que se endivida comprando obsessivamente coisas supérfluas que depois não pode pagar, chegando ao ponto de haver alguns dias em que não tem dinheiro, por exemplo, para algo tão básico como almoçar! Perante estes casos surge a pergunta: é uma espécie de doença ou trata-se de uma culpa moral com o consequente castigo? Como agir quando a própria pessoa é, de algum modo, culpada pela situação de pobreza que vive? Não sei, mas é, sem dúvida, desconcertante! É fácil dizer «foi bem feito, quem o mandou meter-se naquilo?». No entanto, a caridade lembra-nos que se trata de um caso de pobreza para resolver.
A hipocrisia e a má vontade de tantas instituições responsáveis a nível local, tais como: autarquias sempre adiam “sine die” as soluções dos problemas concretos, ou que sempre encontram um oportuno entrave burocrático ou de jurisdição; assistentes sociais que deixam perpetuar casos “eternos”; comissões locais onde apenas se fala mas não se age.
A incompreensão da pobreza associada a outras misérias: álcool, droga… Destaco, sobretudo, a prostituição: na cabeça da maioria das pessoas, as prostitutas continuam a ser mulheres preguiçosas que fizeram uma opção pela vida fácil para ganhar dinheiro sem esforço ou até pelo prazer! Mas… será (sempre) assim?
Outro aspecto muito importante e que nem sempre é claro para toda a gente: a pobreza não significa necessariamente miséria! Por isso, a pobreza nem sempre é visível, por isso tantas vezes nos escapa sem que sejamos sequer capazes de a identificar. Uma pessoa ou família pode ter necessidade de alguns bens importantes e passar algumas privações mais ou menos graves sem, no entanto, viverem um grau de pobreza extrema.
A pobreza raramente é visível: tanto é real em pessoas que parecem de nada precisar como é fingida em pessoas que vivem bem embora aparentem passar miseravelmente. É uma realidade complexa e que eu sinto, acima de tudo, como algo profundamente desconcertante aos mais variados níveis.
domingo, 25 de abril de 2010
Onde é que estava Deus?
Deus estava lá, onde sempre esteve! O Crucificado continua a sofrer hoje. No sismo, na guerra, na violência, principalmente contra os inocentes, na fome, na miséria, em todo o lado onde nos parece que Ele está ausente é precisamente aí que Ele está! Ele sempre esteve a sofrer com os que sofrem. A pergunta certa não é «onde é que está Deus?», mas sim «onde é que estou eu?»; a pergunta certa não é «o que é que eu penso de Deus?», mas «o que é que Deus pensa de mim?»: isso é que é importante! Ele, o Crucificado, sempre esteve lá. Ele é o único que encarna a vida humana na sua totalidade, o único Deus que assume todo o sofrimento. Onde alguém sofre, Ele sofre. Por isso é que a nossa fé não é vaga, nem alienada, nem “etéreo-gasosa”; por isso é que a nossa fé não se perde nas nuvens, mas assume tudo aquilo que a vida é. Por isso é que a vida eterna não é uma coisa de mortos, mas é aquilo que começamos a viver aqui, agora, já! Na verdade, a vida eterna é o convívio com Deus.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Contradições de hoje
Nestes tempos hipócritas um Padre não pode chegar à soleira da porta da igreja e abrir a boca para bocejar porque isso é um atentado contra a liberdade religiosa e contra o Estado laico.
quinta-feira, 11 de março de 2010
O matrimónio é mais antropológico do que jurídico
O matrimónio responde à realidade antropológica do ser humano, que existe sempre no masculino ou no feminino. São duas formas distintas e complementares de ser: de pensar, de sentir, de se manifestar, de se comportar, de agir...
O matrimónio responde a essa condição dupla de ser pessoa humana, à necessidade antropológica que homem e mulher sentem de compartilhar a sua existência com quem, a partir da diversidade do sexo, demonstra ser o amigo verdadeiro (Gn 2, 23-24). Na verdade, trata-se de uma realidade antropológica, muito antes de ser sócio-jurídica.
Ora, não estarão as recentes leis portuguesas (e estrangeiras, mais ou menos recentes) sobre os casamentos homossexuais a reduzir o matrimónio a uma realidade jurídica, esquecendo completamente a sua essência antropológica? Creio que sim! De facto, é só na medida em que se considera o matrimónio como uma realidade exclusivamente jurídica que é possível alterar a sua configuração, porque a legislação é feita pelo homem e pode ser por ele alterada, enquanto a realidade antropológica é anterior a qualquer decisão, mesmo à decisão político-legislativa.
Ora, não estarão as recentes leis portuguesas (e estrangeiras, mais ou menos recentes) sobre os casamentos homossexuais a reduzir o matrimónio a uma realidade jurídica, esquecendo completamente a sua essência antropológica? Creio que sim! De facto, é só na medida em que se considera o matrimónio como uma realidade exclusivamente jurídica que é possível alterar a sua configuração, porque a legislação é feita pelo homem e pode ser por ele alterada, enquanto a realidade antropológica é anterior a qualquer decisão, mesmo à decisão político-legislativa.
quarta-feira, 3 de março de 2010
As catástrofes naturais e o verdadeiro sentido da vida
Nos últimos dias as más notícias, as grandes más notícias, como terramotos, enxurradas, ventos, mortos e feridos (umas vezes às dezenas e outras aos milhares) têm-se sucedido de uma maneira pouco comum… Ainda nem digerimos o choque de uma notícia e já estamos a receber outra.
Que se passa com o Céu para mandar tantas desgraças sobre a terra? São acontecimentos dolorosos que sucedem: não é Deus que os manda, não são castigos, não são vinganças como se Deus estivesse ressentido por ter sido esquecido pelo mundo. Contudo, estas desgraças podem tornar-se, de alguma forma, um momento de graça, se forem reflectidas por nós: estes acontecimentos são uma chamada de atenção para o verdadeiro sentido da vida.
Que se passa com o Céu para mandar tantas desgraças sobre a terra? São acontecimentos dolorosos que sucedem: não é Deus que os manda, não são castigos, não são vinganças como se Deus estivesse ressentido por ter sido esquecido pelo mundo. Contudo, estas desgraças podem tornar-se, de alguma forma, um momento de graça, se forem reflectidas por nós: estes acontecimentos são uma chamada de atenção para o verdadeiro sentido da vida.
Por vezes, podemos viver a vida perdendo-nos apenas no seu aspecto material, sem pensar em mais nada senão em enriquecer, procurar o luxo, as farras… As calamidades mostram-nos até que ponto esses bens são efémeros: não devemos por neles todo o sentido da nossa vida, porque podemos perdê-los de um momento para o outro. Muitas vezes, enganados por falsas promessas de felicidade, também nós nos afastamos de Deus, convencidos de que podemos encontrar a alegria e a paz sem Ele. Mas depois acabamos por nos encontrar sós e desiludidos, agarrados a seguranças passageiras numa condição de fracasso e de morte. Temos, portanto que nos agarrar ao Eterno. Temos que gozar este mundo mas sabendo que ele está sempre a mudar e que uma felicidade completamente depositada apenas no material pode ir por água abaixo na próxima enxurrada ou desmoronar-se no próximo terramoto. Tudo isto nos faz pensar (embora quase não o consigamos engolir!) que, mesmo quando o material significa o esforço de toda uma vida, essa vida precisa de continuar apesar de aquele bem material já não existir. Precisa de continuar e de continuar com um sentido.
«E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé, matando-os, eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos da mesma forma.» (Lucas 13, 4-5)
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Ano Novo, melhor ano
Há uma quadra que costumávamos cantar nas janeiras da Tuna Popular de Arganil que diz:
Ano novo, ano novo
Ano novo melhor ano.
Vimos cantar as janeiras
Como é lei de cada ano.
Mas sentimos a resistência do pessimismo… A crise económica, o desemprego… Todo isso faz vacilar a nossa fé de que virão dias melhores. Felizes seremos se, face a essa dura realidade, soubermos manter firme a esperança de que ano novo pode significar melhor ano.
A entrada num novo ano tem, na nossa mente, um efeito de purificação: é como uma folha em branco que temos pela frente, na qual podemos escrever de novo a nossa história. É como se recebêssemos uma nova oportunidade. Temos uma sensação psicológica de que as coisas se renovam e é bom que assim seja. Porque, faces às dificuldades reais, o que é preciso é este espírito de quem vê tudo com um novo olhar e espera possamos começar de novo. Porque só com este espírito estaremos em condições de enfrentar a tão dura realidade. É sabido que os doentes que sofrem a sua doença com o ânimo abatido retardam e prejudicam o seu tratamento, enquanto os que a sofrem com confiança melhoram com mais rapidez e eficácia.
Também no resto da vida é assim. Não deixemos morrer a fé de que hoje será melhor do que ontem e amanhã melhor do que hoje, porque isso também depende de nós, do modo como enfrentamos o novo ano. E temos a confiança no poder de Deus: se acreditamos no poder de Deus, veremos nos aspectos negativos apenas algo passageiro. «Erguei-vos e levantai a cabeça!» Ano novo melhor ano! Um bom 2010 para todos os leitores.
Publicado no Astrolábio, boletim das paróquias de Ervedal da Beira, Lagares da Beira, Lageosa, Lagos da Beira, Meruge, Seixo da Beira e Travanca de Lagos.
Ano novo, ano novo
Ano novo melhor ano.
Vimos cantar as janeiras
Como é lei de cada ano.
Mas sentimos a resistência do pessimismo… A crise económica, o desemprego… Todo isso faz vacilar a nossa fé de que virão dias melhores. Felizes seremos se, face a essa dura realidade, soubermos manter firme a esperança de que ano novo pode significar melhor ano.
A entrada num novo ano tem, na nossa mente, um efeito de purificação: é como uma folha em branco que temos pela frente, na qual podemos escrever de novo a nossa história. É como se recebêssemos uma nova oportunidade. Temos uma sensação psicológica de que as coisas se renovam e é bom que assim seja. Porque, faces às dificuldades reais, o que é preciso é este espírito de quem vê tudo com um novo olhar e espera possamos começar de novo. Porque só com este espírito estaremos em condições de enfrentar a tão dura realidade. É sabido que os doentes que sofrem a sua doença com o ânimo abatido retardam e prejudicam o seu tratamento, enquanto os que a sofrem com confiança melhoram com mais rapidez e eficácia.
Também no resto da vida é assim. Não deixemos morrer a fé de que hoje será melhor do que ontem e amanhã melhor do que hoje, porque isso também depende de nós, do modo como enfrentamos o novo ano. E temos a confiança no poder de Deus: se acreditamos no poder de Deus, veremos nos aspectos negativos apenas algo passageiro. «Erguei-vos e levantai a cabeça!» Ano novo melhor ano! Um bom 2010 para todos os leitores.
Publicado no Astrolábio, boletim das paróquias de Ervedal da Beira, Lagares da Beira, Lageosa, Lagos da Beira, Meruge, Seixo da Beira e Travanca de Lagos.
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