terça-feira, 1 de março de 2016

Um mistério dominicano no concelho de Pampilhosa da Serra

    Há, na nossa unidade pastoral, um mistério relacionado com São Domingos que atravessa o concelho de Pampilhosa da Serra de norte a sul e no qual muito poucas pessoas terão reparado.
    Os penedos de Fajão são o início de uma cordilheira de penedos e cabeços pontiagudos que, de Fajão, prossegue para sul, marcando a fronteira entre as freguesias de Vidual e Cabril, sustentando a barragem de Santa Luzia, passando pelos Brejos até Janeiro de Baixo, onde forma a “garganta do Zêzere”, e continuando por Orvalho, se perde de vista em sucessivos cabeços mais ou menos aguçados. Há, até, quem já me tenha dito que este conjunto rochoso contínuo entra Espanha adentro e vai quase até França!
    Mas os povos que habitam esta correnteza de penedos, de tal forma estão concentrados na sua pequena aldeia, nem sempre se apercebem de que há um elemento comum que os une, para além da geografia. Esse elemento é um santo: São Domingos! São Domingos de Gusmão, fundador da Ordem dos Pregadores (dominicanos).
    Cavaleiros de Cima é um lugar anexo da paróquia de Fajão que fica junto ao rio Ceira, no sopé dos penedos de Fajão, e o padroeiro da sua capela é São Domingos. Também em Fajão se contam lendas sobre São Domingos relacionadas com os famosos penedos de Fajão. A ligação de Fajão a São Domingos parece tanto mais estranha se tivermos em conta que Fajão, a estar relacionado com alguma ordem religiosa, seria com Santa Cruz de Coimbra, pois foi terra que pertenceu ao mosteiro de Folques. Continuando a seguir a correnteza rochosa, chegamos ao Cabril, cujo padroeiro da igreja paroquial é, exactamente, São Domingos! Aliás, o povo do Cabril chama «Serra de São Domingos» à crista de rocha viva por cima daquela sede de freguesia. Passando a barragem, chegamos à paróquia de Janeiro de Baixo. E adivinhem quem é o padroeiro da igreja paroquial de Janeiro de Baixo… Nem mais nem menos do que São Domingos de Gusmão!
    Pelo menos três invocações de São Domingos tão perto umas das outras e todas na mesma sequência de serra. Espantoso, não é?
    Mas quem estiver impressionado espere, porque ainda há mais!
    Sabem qual é o padroeiro o Souto do Brejo, um lugar da paróquia de Janeiro de Baixo, perto da barragem de Santa Luzia e também inserido na encosta desta serra tão dominicana? Não, não é São Domingos… Mas é São Jacinto, um santo dominicano!
    E ainda há mais. O Machialinho é um lugar que já fica bastante afastado destes misteriosos penedos, mas ainda pertence à paróquia de Janeiro de Baixo*. O seu padroeiro é São Vicente Ferrer, um outro santo dominicano.
    Perante tantas coincidências, até me pergunto se não haveria mais santos dominicanos por aqui, pois, no meio de tantos ilustres vultos da Ordem dos Pregadores, estou a achar a falta de um dos maiores: São Tomás de Aquino. Com tantas igrejas e capelas dedicadas a São Domingos e, até, a São Jacinto e São Vicente Ferrer, parece que fica o cenário incompleto sem o Doctor Angelicus.
    A muitas pessoas parece estranho, já em si mesmo, que se invoque São Domingos na serra: «Como é que o São Domingos veio aqui parar?», perguntam, surpreendidas, algumas pessoas que descobrem algum destes oragos. Mas torna-se ainda mais estranho que sejam tantos, tão seguidos e tão relacionados entre si.
    Em qualquer dos casos, estamos a falar de invocações muito antigas, e perdeu-se da memória colectiva a razão que levou a que fossem escolhidos todos estes padroeiros dominicanos. Nunca encontrei no concelho de Pampilhosa da Serra qualquer vestígio de presença de ordens religiosas. Enquanto a linha do rio Alva é tão rica em mosteiros, parece não haver qualquer vestígio de presença permanente de vida consagrada em todo o concelho da Pampilhosa.
    Que vos parece deste mistério?
    Por minha parte, só encontro uma explicação: os frades dominicanos, há muitos séculos, andaram muito por aqui; talvez até tenham sido eles que evangelizaram ou, pelo menos, re-evangelizaram esta zona.
    Espero por algum leitor que possa ter uma reposta para este mistério.
    Quem sabe se será encontrada alguma prova documental da hipótese que levanto de uma remota missionação dominicana?
    Quem sabe se a Ordem dos Pregadores nos poderá dizer alguma coisa sobre isto?
    E quem sabe, até, se isto não poderia ser um bom pretexto para os dominicanos voltarem às nossas terras como missionários?


* Complementando a curiosidade geográfica, há que dizer que o Machialinho, embora não esteja exactamente inserido na correnteza rochosa que se inicia em Fajão, está, contudo, na encosta de uma outra montanha de cristas rochosas que parece começar num enorme afloramento que coroa, qual castelo, um cabeço próximo das Meãs, que continua, qual muralha, até Unhais-o-Velho, sobe até à Portela de Unhais, continua pela crista daquele monte que passa na Selada da Porta, por cima do Machialinho, vindo, depois, a atravessar o Zêzere para seguir para o concelho do Fundão. É possível que esta outra corrente de penedos seja paralela em relação à de Fajão, ou até mesmo uma ramificação dela.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Oitavário pela unidade dos cristãos: como, porquê e para quê?

Todos os anos, de 18 a 25 de Janeiro, celebramos oito dias de oração pela unidade dos cristãos. O que é isso? E para quê?

No princípio, a Igreja estava unida… Em 1050, depois de uma série de discussões e num contexto histórico polémico, deu-se a grande separação entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas, que subsiste até hoje. No séc. XVI, o monge alemão Martinho Lutero deu início à reforma protestante. Depois, sobretudo entre os protestantes, continuaram as sub-divisões…

Estas duas grandes rupturas mantêm os cristãos escandalosamente divididos. Uma cristandade assim dividida entristece profundamente o nosso Mestre e prejudica a eficácia do nosso testemunho e da evangelização.

Será que a unidade é possível? Sim, há sinais de esperança: por um lado, ao longo dos séculos, muitas Igrejas Ortodoxas voltaram à comunhão com o Santo Padre (são as chamadas Igrejas “uniatas”); por outro lado, muitos protestantes, individualmente, começam a perceber, na Bíblia e na história da Igreja, os sinais que apontam para a originalidade e autenticidade da Igreja Católica, muitos deles desiludidos com o cada vez maior relativismo das suas comunidades protestantes.

De 18 a 25 de Janeiro, de um modo especial, rezemos pelos nossos irmãos separados, os protestantes e ortodoxos, para que, redescobrindo a beleza e a verdade da única Igreja de Cristo, regressem à casa paterna e, assim, volte a haver um só rebanho e um só Pastor.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

«Um anjo de satanás que me esbofeteia»

S. Paulo não diz qual era a tentação que constantemente o atormentava, mas deixa claro que era muito difícil lutar contra ela: «foi-me deixado um espinho na carne, um anjo de satanás que me esbofeteia», ouvimos na 2ª leitura. A tentação não é pecado; o que é pecado é cair na tentação. Nem sequer sabemos se S. Paulo caiu nessa tentação que o atormentava como «um espinho na carne», mas o certo é que ela era para o Apóstolo um tormento difícil, por um lado, e constante, por outro; ou talvez fosse difícil exactamente por ser constante. Uma luta fatigante, sem tréguas, a ponto de S. Paulo «por três vezes» ter rogado ao Senhor que afastasse de si esse anjo de satanás.
Todos desejaríamos uma vida tranquila, sem ter que enfrentar a luta tão dura contra as tentações. Mas isso seria uma espiritualidade falsa. Toda a vida dos grandes santos foi uma luta diária contra as mais duras tentações. São Paulo teve visões, mas «para que a grandeza das revelações não me ensoberbeça, foi-me deixado um espinho na carne, […] para que não me orgulhe». Assim, se Deus permite que sejamos tentados (fortemente, embora nunca acima das nossas forças) é para não nos orgulharmos, achando que somos os melhores ou que já somos perfeitos e nada mais temos a crescer.
Também para aprendermos a confiar em Deus e a saber que sem Ele nada podemos fazer: «basta-te a minha graça», respondeu o Senhor a S. Paulo. Parece impossível vencer o pecado, mas com a graça (e só como ela) é possível.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Sermão do Encontro 2015

  O texto a itálico é tirado ou adaptado das visões da bem-aventurada Anna Catarina Emmerich
 
 * * *

Quando Lhe puseram a cruz aos pés, Jesus ajoelhou-Se e abraçou o instrumento de suplício beijando-o por três vezes. Em voz baixa, dirigiu ao Pai um amoroso agradecimento por ter chegado a hora da redenção da humanidade.
Soou o clarim da cavalaria de Pilatos para dar início ao cortejo. Um dos fariseus aproximou-se de Jesus, ainda ajoelhado no chão com o madeiro ao ombro e disse-Lhe:
Já chega de rezas! O caminho é para a frente!
 E obrigaram-no a levantar-Se com violência, sentindo nos ombros, já flagelados, todo o peso da cruz, essa cruz que nós, os que dizemos querer segui-l’O, devemos também levar, conforme Ele nos disse. Tal como Isaac levando a lenha para ele mesmo ser sacrificado, assim o Salvador seguiu o caminho com a cruz às costas.
  
(entra o andor da imagem do
Senhor dos Passos)
  
Segue com a cruz às costas, mas já hoje passou por muito… Alguns homens, vindos de fora, ao passarem, vendo tal espectáculo ficam horrorizados. O Corpo Santíssimo de Jesus, chicoteado com flagelos que arrancavam carne, tornou-Se numa só chaga viva. Jesus, que quase não Se consegue arrastar, sem comer e sem dormir, com as vestes coladas às chagas da flagelação, tendo perdido muito sangue, reza pelos que O maltratam. No caminho do Calvário, Jesus não encontrou senão escárnios e crueldade; mas Ele reza. Cada vez que cai, os carrascos enchem-nos de insultos e agridem-nos com pancadas. Os fariseus gritam:
– Levantem-n’O, senão morre-nos antes de poder ser crucificado!
A rua por onde passa é estreita e suja, e nela tem muito que sofrer. As pessoas que estão em casa injuriam-n’O das janelas. Os escravos atiram-Lhe com lama e imundícies. E até as crianças, que Jesus tanto ama, juntando pedras, atiram-Lhe com elas, ou põem-Lhas diante dos pés.
O Seu belo rosto, agora desfigurado pelos golpes, mete repugnância de tão maltratado que está, “perdeu toda a aparência de um ser humano” (Is 52, 14). Causa-nos repulsa, vemos “nEle um homem castigado, ferido por Deus e humilhado”. Mas o Sangue “que Lhe afoga a fronte” é “chuva de perdão” (Cf. Moreira das Neves). “Ele foi trespassado por causa das nossas culpas e esmagado por causa das nossas iniquidades” (Is 53, 4-5), aquelas que nós não choramos mas devíamos. Foi preciso que Ele nos aparecesse desfigurado pelos nossos pecados para, finalmente, percebemos como eles são feios. E nós, tantas vezes, em vez de chorarmos as nossas culpas, choramos aquilo que já não nos pertence. Estupidamente, choramos por servir a Cristo; choramos estultamente, como se os pecadores é que fossem uns privilegiados.
Quando o toque do clarim deu o sinal de partida para o Calvário, a Santíssima Mãe não pôde resistir ao desejo de tornar a ver o seu Divino Filho e pediu a São João que a acompanhasse a um dos lugares onde Jesus haveria de passar.
 
(entra o andor da imagem de
Nossa Senhora)
 
Ao abrigo daquela porta, na rua onde Jesus havia de passar, Maria está lá, embrulhada no seu manto azul acinzentado, pálida, com os olhos vermelhos das lágrimas. Diz ela a São João:
 Convém que eu assista a este espectáculo, ou devo retirar-me? Terei forças para suportar a vista do meu Jesus?
Homens insolentes e triunfantes, vêm à frente, trazendo os instrumentos do suplício:
Quem é aquela mulher que se lamenta?” perguntam os soldados.
É a Mãe do Galileu.
E atormentavam a Mãe Santíssima com zombarias, apontando-a com o dedo. Um deles pega nos cravos que hão-de de pregar Jesus no madeiro, mostrando-os com ar de escárnio à Mãe dolorosa.
Finalmente, aparece Jesus, vacilante e curvado ao peso de tão dolorosa carga. Ao voltar para Sua Mãe os olhos cheios de compaixão, tropeçando, cai sobre os joelhos e mãos. Maria, na violência de tão grande dor, nem olha para soldados nem algozes: não vê senão o Seu Filho muito amado e, saindo do portal onde estava, lança-se para o meio dos archeiros que maltratam Jesus. Caindo de joelhos aos pés d’Ele, aperta-O ao coração.
 Meu Filho!
 Minha Mãe!
No meio da confusão, São João e as santas mulheres querem levantar Maria. Os carrascos injuriavam-na. Diz-lhe um deles:
 O que é que vieste para aqui fazer, mulher? Se O tivesses educado como devia ser, não estaria agora aqui nas nossas mãos.
 Alguns soldados comoveram-se; outros repeliram a Virgem Santa, mas nenhum lhe tocou.
No Calvário, Maria, as outras mulheres e São João estavam junto à cruz, de olhos fixos no Senhor. Maria, movida pelo amor de Mãe, pedia interiormente a Jesus que a deixasse morrer também com Ele. Mas, com ternura, o Senhor olhou para a Sua Mãe e, volvendo os olhos para São João, disse:
 Mulher, eis o teu filho.
Depois disse a São João, Seu discípulo predilecto:
 Eis aí a tua Mãe.
A Virgem Santíssima ficou abalada mas comovida com tão solenes disposições do Filho moribundo
Na cruz ganhámos uma Mãe. Todos nós, discípulos de Cristo, ali estamos representados em São João, o discípulo predilecto de Jesus. Pela cruz, tornámo-nos filhos do Pai do Céu e, por isso, irmãos de Cristo. Porque somos irmãos de Cristo, a Sua Mãe e também nossa Mãe.
“Lembrai-vos que não foi por coisas corruptíveis, como prata e ouro, que fostes resgatados dessa vã maneira de viver […], mas pelo Sangue precioso de Cristo, Cordeiro sem defeito e sem mancha.” (cf. 1 Pedro 1, 18-21). Vã maneira de viver é viver como se Deus não existisse. Dessa maneira vã de viver é que podemos ser hoje resgatados. E não é por prata nem ouro que somos resgatados, mas por um preço muito mais precioso, inestimável: o Sangue de Cristo! Nunca mais desperdiçar gota nenhuma desse Sangue preciosíssimo! Nunca mais viver como se Deus não existisse! Nunca mais viver a não ser como cristão! Se escolhemos Cristo, chega de invejar o que ficou para trás. Não vale a pena chorar: escolhemos a melhor parte!
Jesus morreu: segui-l’O é renúncia. Jesus ressuscitou: segui-l’O é viver uma vida nova.
    
Pampilhosa da Serra, 29-03 2015
Padre Orlando Henriques