quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

O sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial

O sacerdócio ministerial é o sacerdócio dos bispos e padres (não dos diáconos); o sacerdócio comum dos fiéis é o sacerdócio de todos os baptizados. Sacerdote significa: aquele que oferece o sacrifício. E sacrifício significa oferta sagrada. Então, o sacerdote é aquele que oferece a Deus um sacrifício. Cristo é, a bem dizer, o único verdadeiro sacerdote (cf. Carta aos Hebreus): sacerdote único e eterno porque Se ofereceu a Si mesmo no altar da cruz. Ele próprio é, ao mesmo tempo, o sacerdote e a oferta.
Chamamos sacerdotes aos padres porque, agindo «na pessoa de Cristo Cabeça» (cf. Catecismo Igreja Católica nº 1548), eles oferecem no altar o sacrifício de Cristo na Cruz, actualizado através da Eucaristia. Porém, todo o baptizado é, pelo seu baptismo, sacerdote, como Cristo.
Então, sendo sacerdotes, que oferta sagrada é que oferecem a Deus? O cristão oferece a Deus em sacrifício a sua vida. Isto não que dizer que faça da sua vida um sacrifício=sofrimento, mas sim um sacrifício=oferta a Deus, oblação. Embora os seus sofrimentos também façam parte da sua oferta, pois o baptizado consagra ao seu Senhor toda a sua vida, tudo aquilo que é. Ele é consagrado pelo baptismo e pela unção do Espírito Santo para oferecer, mediante todas as obras do cristão, sacrifícios espirituais.
Este «sacerdócio comum» é o de Cristo, único Sacerdote, do qual participam todos os seus membros (cf. Catecismo nº 1141). E é o selo baptismal os compromete e os torna capazes de: servir a Deus mediante uma participação viva na santa liturgia da Igreja; e de exercer o seu sacerdócio baptismal pelo testemunho duma vida santa e duma caridade eficaz (cf. Catecismo nº 1273).
Sacerdócio comum e ministerial são duas participações no mesmo sacerdócio de Cristo, Único Sacerdote. Sacerdócio “comum” não quer dizer inferior. Bem pelo contrário, o sacerdócio ministerial (=dos bispos/padres) existe por causa do sacerdócio comum (=de todos os baptizados), e não o contrário. Na verdade, o sacerdócio comum dos fiéis realiza-se através do desenvolvimento do seu baptismo: vivendo uma vida de fé, esperança e caridade, uma vida segundo o Espírito. Ora, o sacerdócio ministerial proporciona ao baptizado os meios de que ele necessita para viver a vida divina que recebeu no baptismo. O sacerdote (padre) é um dispensador desses meios, principalmente dos sacramentos. Ninguém tem direito a ser padre: a comunidade é que tem direito a que ele seja padre!
Mas os padres continuam a viver, também, o sacerdócio comum dos fiéis. Antes de serem padres são baptizados: «Convosco sou cristão; para vós sou bispo» (Santo Agostinho).

sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

A Páscoa de Schillebeeckx

Edward Cornelius Florentinus Alfonsus Schillebeeckx
12 de Dezembro de 1914 – 23 de Dezembro de 2009

Teólogo flamengo dominicano, um dos teólogos mais importantes do século XX.
O principal autor que cito na minha dissertação de mestrado (Edward Schillebeeckx, O Matrimónio, Realidade terrestre e mistério de salvação, Vozes, Petrópolis 1969).

Paz à sua Alma!
Saiba mais sobre Schillebeeckx clicando aqui.
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quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

O Evangelho não faz biografia

Aquilo que o Evangelho nos transmitiu acerca da infância de Jesus é quase nada: os quatro evangelistas contam-nos o nascimento de Jesus e a sua subida a Jerusalém aos doze anos e mais nada: tudo o resto, até aos trinta anos (idade com que Jesus começou a sua vida pública) é um grande apagão!...

A forma de escrever dos evangelistas é muito própria. Os seus relatos não são tratados de história, nem crónicas jornalistas, nem sequer uma biografias de Jesus, mas formam um género literário próprio, à parte de todos esses: o género literário "evangelho". O evangelho é um género literário próprio que é escrito com o fim de levar os leitores à fé, a aderir à pessoa de Jesus Cristo.

É por isso que os quatro evangelistas canónicos não contam todos os pormenores da vida de Jesus: fazem apenas uma selecção que sirva esse seu fim de chamar à fé. E por isso é com grande pena da nossa parte que vemos serem omitidos pormenores que satisfariam a nossa curiosidade: não sabemos, embora gostássemos muito, como foi a vida de Jesus até aos trinta anos e nem sequer sabemos qual era o seu aspecto físico. É, de facto, pena, mas isso não interessava aos evangelistas: era bom para satisfazermos a curiosidade, mas é irrelevante no que toca a introduzir o leitor na fé levando-o a ver em Jesus o Filho único de Deus, o único Salvador e a aderir a Ele (não só à Sua mensagem ou à Sua moral, mas também à Sua Pessoa!) com toda as forças e de todo o coração. Isso é muito mais importante, e era isso que interessava aos autores sagrados

Algumas informações que haja no sentido de satisfazer a nossa curiosidade sobre pormenores da vida de Jesus, em especial acerca da infância, são baseadas, normalmente, em tradições apócrifas. Sei, por exemplo, que há uma tradição apócrifa que diz que São José morreu quando Jesus tinha 19 anos... ou que Jesus, em criança, para se divertir, brincava fazendo passarinhos de barro aos quais depois dava vida...
A Igreja não proibe a leitura dos evangelhos apócrifos como leitura piedosa (pessoal), embora considere que só os 4 evangelhos canónicos é que são Palavra de Deus. E isto desde o princípio (séc. II, pelo menos, ou seja, logo pouco depois da formação dos últimos livros do Novo Testamento). De facto, desde muito cedo que escritores eclesiásticos dos mais autorizados nos transmitem que nas suas comunidades são lidos estes e aqueles livros (os canónicos), pelo que é possível fazer listas dos livros bíblicos que desde o início da Igreja foram considerados canónicos pelas diversas comunidades: os que eram lidos na liturgia, os que eram apresentados como Palavra de Deus.

Claro que ninguém nos impede de levantar hipóteses com base noutras fontes históricas (profanas, da história civil) e arqueológicas ou em suposições lógicas. Por exemplo, embora o Evangelho não nos diga qual era a profissão de Jesus, temos por quase certo que era carpinteiro. O seu pai (adoptivo) era carpinteiro («Não é Ele o filho do carpinteiro?» Mateus 13, 55), portanto, nada mais natural do que Jesus ter aprendido o ofício de José e ter trabalhado com ele. Mas certezas… Também há quem diga que Jesus era fariseu, apesar de criticar tanto os fariseus... O Evangelho não diz nada sobre isso, mas podemos colocar a hipótese: apesar de criticar o legalismo dos fariseus (eles levavam tudo à letra, por vezes hipocritamente), Jesus diz que existe ressurreição dos mortos, tese que também era defendida pelo partido dos fariseus, por oposição ao partido dos sadudeus, os quais negavam a ressurreição. Jesus aparece mesmo em confronto com os saduceus nesta questão (Marcos 12, 18-27). Mas certezas sobre se Ele sempre era ou não fariseu...

sábado, 23 de Janeiro de 2010

Oitavário pela unidade dos cristãos

Todos os anos de 18 a 25 de Janeiro

No princípio, a Igreja estava unida… Em 1050, depois de uma série de discussões teológicas e num contexto histórico polémico, houve a grande separação entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas, que subsiste até hoje. No séc. XVI, o monge alemão Martinho Lutero deu início à Reforma Protestante.
Estas duas grandes rupturas, com culpas das várias partes, mantêm os cristãos escandalosamente divididos. Nos séculos após os Descobrimentos, católicos e protestantes evangelizaram o mundo, mas fizeram-no levando para as novas terras o escândalo do Corpo de Cristo dividido e em guerra.
Na última ceia, o Senhor Jesus rezou assim ao Pai: «Não rogo só por eles [os Apóstolos], mas também por aqueles que hão-de crer em Mim, por meio da sua palavra, para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti; para que assim eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu me enviaste.» (João 17, 20-21). Católicos, protestantes e ortodoxos rezam o mesmo Credo, mas estão divididos há séculos… Uma Igreja assim dividida entristece profundamente o nosso Mestre e prejudica a eficácia do nosso testemunho e da evangelização. Por ocasião do encerramento do oitavário da unidade dos cristãos de 2008, Bento XVI disse:
«Na conclusão da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, estamos ainda mais conscientes de quanto a obra da recomposição da unidade, que exige todas as nossas energias e esforços, seja contudo infinitamente superior às nossas possibilidades. A unidade com Deus e com os nossos irmãos e irmãs é um dom que provém do Alto, que brota da comunhão do amor entre Pai, Filho e Espírito Santo e que nela se aumenta e se aperfeiçoa. Não está em nosso poder decidir quando ou como esta unidade se realizará plenamente. Só Deus o poderá fazer!»
Publicado também em http://arciprestado-de-oliveira.blogspot.com/ e no Astrolábio, boletim das paróquias de Ervedal da Beira, Lagares da Beira, Lageosa, Lagos da Beira, Meruge, Seixo da Beira e Travanca de Lagos.

quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010

Ano Novo, melhor ano

Há uma quadra que costumávamos cantar nas janeiras da Tuna Popular de Arganil que diz:

Ano novo, ano novo
Ano novo melhor ano.
Vimos cantar as janeiras
Como é lei de cada ano.

Mas sentimos a resistência do pessimismo… A crise económica, o desemprego… Todo isso faz vacilar a nossa fé de que virão dias melhores. Felizes seremos se, face a essa dura realidade, soubermos manter firme a esperança de que ano novo pode significar melhor ano.

A entrada num novo ano tem, na nossa mente, um efeito de purificação: é como uma folha em branco que temos pela frente, na qual podemos escrever de novo a nossa história. É como se recebêssemos uma nova oportunidade. Temos uma sensação psicológica de que as coisas se renovam e é bom que assim seja. Porque, faces às dificuldades reais, o que é preciso é este espírito de quem vê tudo com um novo olhar e espera possamos começar de novo. Porque só com este espírito estaremos em condições de enfrentar a tão dura realidade. É sabido que os doentes que sofrem a sua doença com o ânimo abatido retardam e prejudicam o seu tratamento, enquanto os que a sofrem com confiança melhoram com mais rapidez e eficácia.

Também no resto da vida é assim. Não deixemos morrer a fé de que hoje será melhor do que ontem e amanhã melhor do que hoje, porque isso também depende de nós, do modo como enfrentamos o novo ano. E temos a confiança no poder de Deus: se acreditamos no poder de Deus, veremos nos aspectos negativos apenas algo passageiro. «Erguei-vos e levantai a cabeça!» Ano novo melhor ano! Um bom 2010 para todos os leitores.


Publicado no Astrolábio, boletim das paróquias de Ervedal da Beira, Lagares da Beira, Lageosa, Lagos da Beira, Meruge, Seixo da Beira e Travanca de Lagos.

Festa das Famílias em Aldeia Formosa

A Festa das Famílias deste ano foi uma experiência muito positiva para todos os que passaram a tarde do passado Domingo, dia 3 de Janeiro, em Aldeia Formosa (Seixo da Beira), no salão da ARCAF. Houve uma redução do número de participantes em relação ao ano anterior (este ano estiveram presentes cerca de 150 pessoas), mas ganhámos pela qualidade e alegria do convívio. E nem por isso o salão da Associação de Aldeia Formosa deixou de ficar composto.

Pelas 13h30m, o grupo de casais, a quem coube a responsabilidade da preparação deste encontro e a confecção do almoço, iniciou a distribuição de um saboroso rancho pelas mesas cheias de pessoas que vieram um pouco de todas as sete paróquias. De facto, mesmo que com poucas pessoas nalguns casos, não houve nenhuma das nossas sete paróquias que não estivesse representada.

Depois do almoço, três jovens animaram o ambiente com as suas concertinas dando ocasião a um pouco de baile. De seguida, o grupo de casais, com a sua boa disposição e espírito de improviso, subiu ao palco e arrancou vivas gargalhadas dos presentes com uma divertida comédia sobre o atribulado Domingo de uma família de pessoas muito diferentes… E porque o improviso foi palavra de ordem, uma criança, o Afonso, de microfone em punho, surpreendeu toda a gente revelando-se um precoce candidato ao Festival da Canção! Seguiu-se um momento bastante aguardado. Na parede foram projectadas fotografias de todos os presépios das igrejas e capelas das nossas paróquias, que foram sujeitos à avaliação das coordenadoras da catequese no dia 27 de Dezembro. Depois de todos terem visto os presépios, foram revelados os vencedores: em 3º lugar, o das Seixas, com 104 pontos; em 2º lugar, o da igreja matriz de Meruge, com 110 pontos; e, em 1º lugar, os de Seixo da Beira e Vila Franca da Beira, ambos com 118 pontos.

Foi, sem dúvida, uma verdadeira tarde de encontro e de autêntico convívio, onde todos contactaram com pessoas vindas de lugares tão diferentes e que, apesar de relativamente próximos, são ainda muito desconhecidos. Foi, por isso, um encontro de verdadeiro convívio, porque conviveram as famílias e porque tomámos consciência da beleza da família alargada que são as nossas sete paróquias.

Publicado no Astrolábio, boletim das paróquias de Ervedal da Beira, Lagares da Beira, Lageosa, Lagos da Beira, Meruge, Seixo da Beira e Travanca de Lagos.

quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

Os leigos na Igreja

Quando se fala de leigos a tentação terrível e mais imediata é a de pensar naqueles que fazem as celebrações da Palavra e dizer: «Pois… Há falta de padres… Os leigos é que têm de fazer… têm que substituir…»
Talvez tenha sido a necessidade que nos fez acordar e ver que os leigos têm um papel activo na Igreja, mas não se trata de uma questão de necessidade: é vocação dos leigos. Mais: essa vocação não se limita a celebrações, como se fossem substitutos dos padres. Sim, digo vocação, uma vocação muito própria, que nos é lembrada pelo Vaticano II na Apostolicam Actuositatem:

«[Os leigos] são participantes do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo […]. Exercem, com efeito, apostolado com a sua acção para evangelizar e santificar os homens e para impregnar e aperfeiçoar a ordem temporal com o espírito do Evangelho […]. E sendo próprio do estado dos leigos viver no meio do mundo e das ocupações seculares, eles são chamados por Deus para, cheios de fervor cristão, exercerem como fermento o seu apostolado no meio do mundo». (nº2)

Através do leigo, envolvido nas mais diversas áreas da sociedade, o testemunho cristão chega a lugares e pessoas a que nunca chegaria através de um padre!